Quinta-feira, Agosto 31, 2006
LUCINHA E OS ANOS
E por mais que eu quisesse encontrar um bom motivo para não ter entrado naquele banheiro, nada ocorria. Agora, tantos anos depois, o mesmo cigarro, a mesma pele só me falata mesmo ver os olhos bem de perto. Do grupo, poucos aceitaram o desafio de atravesar a porta do banheiro feminino e tanto ver o que Lucinha fazia lá dentro. Poucos.
Lucinha usava óculos escuros enormes e fungava teatralmente na beira do caixão de Marcos. Nunca perdoamos esse patife por ter nos capturado a princesa e agora não iríamos perdoá-lo por abandoná-la assim de forma tão repentina, e na turma que conservava na memória uma Lucinha cheia de segredos e promessas transgressoras a via reduzida a uma viúva ordinária como tantas outras viúvas ordinárias naquele mesmo dia de enterros calorentos e apressados.
Realmente imperdoável manter esta mulher num lugar de sombras onde ela se parece com qualquer outra. Marcos sempre foi o mais calhorda, foi o primeiro a fumar, beber, perder a virgindade e finalmente, supremo ápice adolescente, comer a Lucinha. Lembro até hoje do diálogo incrédulo:
- Comeu?
- Comi...
- Você não tá falando sério.
- Comi cara...
O babaca acendia um cigarro e e aumentava o suspense, nossos olhos arregalados:
- E como foi?
- Normal.
- Ela é boa?
- Gostosa, né?
- Então foi bom?
- Mais ou menos... A Marília é melhor.
E nos dava aquele tapa violento na cara, aquele tapa moral. Todos queriam Lucinha. Mas ele, ele não, desprezava a musa como quem mija num carro importado, só para sacanear o vizinho.
O que restava pra mim além de envolvê-la naquela aura nostálgica ainda mais um pouco? Faria de mim mais jovem, mais honesto. Imaginei: Ela, num enterro, só com as canelas de fora chorando por um homem que não sou eu. Eu estivesse morto, fosse eu o cara a comer a Lucinha do ano de oitenta e três, no mínimo ela estaria usando luvas enquanto meu caixão descia desconjuntado pela cova adentro... Sempre achei que ela é do tipo de mulher que usaria luvas no enterro do amado. Ela não o amou. Certeza.
Acabada a cerimônia, andei devagar para a saída do cemitério sem a mínima vontade de cumprimentar quem quer que fosse. Encostei numa lápide musgosa e velha e lá pensei se não seria o Marcos o primeiro de uma dinastia de mortos que iriam me rodear e eventualmente me chamar. Seria mesmo bom estar mort...
- Tem isqueiro?
Ela balançava os óculos na mão esquerda e segurava o cigarro com a outra. Tirei o bic do bolso e acendi sem dificuldade comendo com os olhos a tragada mais funda que uma mulher poderia dar.
- Quer tomar um café?
Resolvi ser sem vergonha depois de velho, e no momento que ela olhou para o portão escancarado do cemitério um raio violento de vida passou pelos olhos daquela mulher. Ela murmurou um por que não acanhado e me deu o braço. E naquele momento, até que o mundo parecia mesmo feito para ser bom.
Posted 4:18 PM by RENATA CORRÊA
Sexta-feira, Agosto 25, 2006
Ridícula. Eu sou muito ridícula. Sede. Tenho muita Sede. Comeria o mundo. Já! Beberia o sangue. Aos poucos.
O que fazer quando tudo parece tão leeentooooooooo.
To me arrastando como se o ar fosse gelatinoso, como se cada átomo girasse bem devagar.
A vida
É muito
Comprida
Meu bem.
Posted 2:43 PM by RENATA CORRÊA
Quarta-feira, Agosto 23, 2006
Relação promíscua
É fato que os partidos políticos sempre se valeram da imagem de seus apoiadores ilustres para agregar valor a própria imagem. Essa associação, muito frutífera e supostamente inteligente pode trazer resultados desastrosos para ambos lados da questão. Quem não se lembra de Regina "Eu tenho medo" Duarte?
No PT essa ligação sempre foi muito intensa. O Partido emprestava aos artistas um ar de avant garde, criando uma legião gauche-dândi que podia encher o peito e dizer: faço arte pelo povo! E claro, que na mais justa troca, o PT ganhava em sinceridade e leveza, emprestada de bom grado por rostos queridos do público, ou por suas atuações televisivas ou por sua história recente pela redemocratização do país. Mas isso foi nos primórdios da esquerda light.
Nas eleições deste ano, até esta manifestação legítima de admiração mútua entre o campo ideológico e o campo artístico tornou-se um tanto nebulosa e questionável. Em uma reunião para promover o encontro de artistas com o presidente Lula, que também é candidato à reeleição declarações controversas jogaram um pouco de luz (ou trevas, quem sabe) sobre o que pensam grandes expoentes da pretensa e pomposa classe artística tupiniquim.
Quem escuta na voz de Milton Nascimento os versos da canção coração de estudante (Coração de Estudante /Há que se cuidar da vida /Há que se cuidar do mundo...) sequer pode imaginar que o autor, Wagner Tiso, poderia proferir a seguinte declaração: Eu não estou preocupado com isso (a ética), estou preocupado é com o jogo do poder. Não estou preocupado com a ética do PT, ou com qualquer tipo de ética. Wagner Tiso ainda dispara opiniões a torto e a direito como o povo está feliz e os resultados (do governo) são fantásticos. Eufórico, não?
Caro Wagner, penso que talvez para alguém que vem sendo sustentado por projetos ligados ao governo federal (Petrobras e Banco do Brasil, só para citar os mais recentes) realmente os resultados do governo vem sendo fantásticos! Porém, alguém que está inundado de otimismo pode ficar temporariamente cego de tanta luz e tenho de alertá-lo: A ética é algo com que devemos nos preocupar. A ética é sim importante, normatiza as relações políticas, sociais e comerciais. A ética impede a barbárie e impede que o povo supracitadamente feliz não seja roubado, vilipendiado, excluído e morto com requintes de crueldade pela mais crônica miséria, pela fome e pelas lombrigas. Você estaria feliz, caro Wagner, ao ser uma das crianças exploradas sexualmente em nosso território? Já que é um artista, talvez se sentisse mais contente sendo obrigado a se espremer entre os carros fazendo malabarismos nos grandes centros dando um novo sentido para a palavra mendicância.
Não questiono o apoio ao candidato Lula. Quem acredita neste projeto deve lutar por ele, principalmente no momento de aperfeiçoar os mecanismos de combate à corrupção e de fiscalização às práticas políticas negativas. Sem isso, do que vale a população em geral que os representantes da sociedade civil se comportem como carneiros balindo infinitamente a mesma canção? O papel da crítica honesta e construtiva não deve ser substituído pela cega concordância, pelo anacronismo dos fins justificando os meios. Sim, meios são importantes é onde se forja o caráter que irá reger um País.
Particularmente no caso Brasileiro já temos de forma tão arraigada esse descompromisso com os meios que não podemos deixar de ficar em alerta sequer um minuto com a paga de nos corrompermos sem sequer saber. Corrupçaõ atávica que aconte muitas vezes nas nossas barbas sem o nosso conhecimento, mas com o nosso consentimento.
Nesta mesma reunião, o ator Paulo Betti resumiu esta confusão na qual vivemos com uma declaração quase que inocente: Política não existe sem mãos sujas. Não dá para fazer sem botar a mão na merda. O ator cria então um paradoxo. Já que desejamos que nossos representantes coloquem a mão na merda, não seria o caso de votar em quem está mais familiarizado com o assunto? Assim elegeríamos ACM´s, Collors, Bolsonaros, Jeffersons como legítimos representantes. Já que o jogo político não tem mesmo jeito, deixemos em Brasília quem entente do binômio merda / coisa pública.
Mas caro Paulo, não seria melhor eleger quem não quer colocar a mão nesta merda? Não acredito que um homem sozinho possa fazer isso, mas um grupo político, e o PT se propôs a ser esse grupo político. Isso não aconteceu, mas quem acredita que este partido pode vir a ser protagonista dessas mudanças depois do impacto de tantas denúncias deve sim fazer campanha e defender esse governo, de forma consciente e crítica. Mais uma vez bato na tecla da participação ativa da sociedade e não na reprodução vazia de dogmas que aprendemos a acreditar.
Sem dogmas e com a cabeça mais arejada depois de tanta porrada, esse País pode e será o que ele tem potencial para ser. Mas ficar andando nos mesmos círculos, reais e metafóricos, só irá servir para perpetuar a idéia do rouba mas faz, que em outros tempos e em outros lábios já indignou e massacrou tanto a nossa gente.
Posted 10:18 AM by RENATA CORRÊA
Segunda-feira, Agosto 21, 2006
No Cachaça Cinema Clube ou Deixa eu sossegar em casa.
R: Mas cara, não chora. Não chora, senta aqui, por favor.
B: Não! Não! Eu sou uma inútil, cara. Só sei fumar, escrever e trepar.
R: Que isso! Olha! Você também sabe beber...você tá bebada!
B: Eu saberia, se não vomitasse toda vez que bebo.
Posted 4:09 PM by RENATA CORRÊA
Terça-feira, Agosto 15, 2006
Fragmento de qualquer coisa.
Foi quando se perguntou quantas vezes colocou a folha em branco a sua frente e não o fez. Não teve ânimo, pois a vida a consumia, o ambiente dizia que não. Não pode contar, pois estava passando o tempo, ela estava passando e desistir começou a fazer parte da nova rotina.
A madrugada estava alta ainda, e esse sono interrompido foi revelando, caudaloso, as coisas todas, as belas e as terríveis que estavam ao alcance da mão e que de tanta negligência vieram assombrá-la. Levantou, bebeu um copo d´água e sentada no sofá, esperou o dia acontecer. E assim se fez.
O céu negro foi se azulando e também a hora da anunciação. Ficar em casa parecia agora um desperdício e sincera, pensou: preciso ver o mar. Não se demorou em preparativos, bateu a porta e descalça enfrentou as pedras portuguesas - dois quarteirões foram vencidos e sem cerimônia entregou o corpo a textura da areia, ao seu abraço frio que é o abraço do solo que acorda depois da noite grande.
Desperta (e agora mais que desperta), ali ficou a fazer compania para si e para todas as outras coisas solitárias. E muitos anos se passaram, até que.
Posted 4:14 PM by RENATA CORRÊA
Terça-feira, Agosto 01, 2006
COISA BOA COMEÇA COM A
ALL ACASO - Onde eu escrevi umas palavrinhas sobre Pergunte ao Pó de Jonh Fante
AQUELE DE QUEM LHE FALEI - Onde eu escrevi sobre um pecado na coluna Frames
Clique e visite. =)
Posted 2:32 PM by RENATA CORRÊA
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