Segunda-feira, Junho 19, 2006
DE RASPÃO
De costas, ela vai, tão linda, olhando para mim. O corte no pé, o sangue manchando a areia. Não poderia perdê-la, o rastro vermelho na areia azul da noite, poderia seguí-la, se não fosse pro mar - o sal cicatriza - explicou, didaticamente.
O que resta a mim, além de girar o gelo no copo, quase tudo virou água, francamente, não entendo alguém patético como eu, que fica parado, e simplesmente não entende.
Um consolo pra quem quer (e eu também quero me redimir, mas passa), é que para cortar o pé, não precisamos mais da rua, que virei resto e de coisa nenhuma, o que é pior, ela corta o pé, mas agora é em cima de mim, e não posso fazer nada, eu deixo por que cada vez que desmonto é outro que surge do que sobra, é estranho saber que daqui a pouco é outro, e ela não percebe a diferença e continua fazendo todas as mesmas coisas.
Foi no dia em que ela disse que me amava eu disse você me pegou de raspão, e aí, descobri que quando ela nada e vai (e ela vai todas as vezes) eu caio, e tem um troço que rebenta dentro e quando fico sem saber, me toma a violência, não consigo conter.
Quando contaram da vertigem, do tropeço e do engano, foi aqui em casa e eu não tive defesa, como defender aquilo que não tem mácula?, aí eu inventei um verbo só pra ela, foi quando ela chorou e às vezes, confessou, me amava. Mas às vezes não serve, esperei até contar toda a verdade, que não foi em cheio e que ainda não é, de raspão. Do lado, não cura, mas ainda assim, não pegou direito e eu fico sem saber se é para sarar ou não, mas ela não quer descobrir. Não é tão ruim, mas além de tudo ela me quer ter, já não basta todo resto, fico achando que não é suficiente, mas eu sei que pode ser, enquanto ainda houver ferida. Inútil achar que pudesse entender, ainda mais comigo, não vou explicar e, sim, quero que fique tudo por isso mesmo.
Quando o pescoço branco descansa na minha barriga, o cabelo preto na nuca fica indo e vindo, indo e vindo e ela só sabe dormir quando eu respiro, mas eu não sei mais como respirar e fica estranho quando digo que o ar não vem, mas não existe nenhum esforço e eu apenas paro. E para quem afoga, às vezes é mesmo melhor deixar, e essa morte não é a das piores, se você parar pra pensar. Todo dia acontece e agora ela finge dormir, e finjo que consigo, e de manhã temos chuveiro e café e não temos mais aquelas outras coisas que fazem - talvez - um casal.
Posted 4:30 PM by RENATA CORRÊA
Segunda-feira, Junho 12, 2006
POR VOCÊ EU MUDO DE ESTADO
Rachado solo, esfarela
Seca grande
Queima planta, plantação
No vão do meu peito sólido
A terra quente agüenta
O tempo também quente
Que me contam ser verão
Rasga o céu um dia azul
Um estouro de retina
Luz fotometrada
Para aridez completa
De um peito sem água
Por você eu mudo de estado
Antiga e calma pedra
Para leito sem controle
De margens amolecidas
E de lama fértil
Quem nesse dia
Ou nesta mesma situação
Não pediu chuva, alagamento
Sermão ou prece?
Tempestade que lave
Este pó da indiferença
Esta poeira
Quem nunca clamou?
Neste corpo pequeno
Amalgama de amor e chão
Uma luta se desenrola, épica
Onde uma veia de tradição
Ou uma linhagem velha
Decidem
Para onde vai o sangue
Em que artéria de vida
Corre o meu lugar.
Por você eu mudo de estado
Do meu canal seco
Ao lençol mais profundo
Aceito ser rio
Mesmo sem correr para o mar
Posted 3:59 PM by RENATA CORRÊA