Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
O NOME DELA.
Pegou o narizinho dela e deu aquela sacudida, de leve. A boca grande sorriu, de menina mesmo, depois foi transformando em riso de safada. Foi chegando perto do peito peludo dele, respirando devagar, os babadinhos do vestido fazendo flapt flapt.
- Benzinho, a janela tá aberta.
Frio, ela sente frio. Arrepiou tudo, até a parte de dentro do braço, a nuca a orelha. Ele não pode nem olhar a pele toda de bolhazinhas, vira um monstro sem controle.
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Cada botão forrado do vestido é fechado por ela, aberto por ele, e fechado por ela novamente.
- São cinqüenta reais.
De sozinho não tinha nada, mas mentiu.
- Não posso mais sem mulher que me cuide.
Olhou a barba preta bem aparada, a ruga amarelada no canto do olho, a garrafa de conhaque no bar e resolveu que era homem de confiança. Ficou. Depois de alguns dias já botava flor no vaso, limpava a charuteira, fazia massagem no pé doente. Era um tal de meu bem, doce, querido, mulherzinha, que na rua do Catete não havia casal mais bem comentado. Passeavam de mãos dadas no Museu da República, ela de sapatinho novo, ele anel vermelho-dourado de bacharel de direito. Na domingueira, dançavam só um pouquinho pra não gastar amor, pega na mão, no braço, na cintura, quantos ais!, uma aflição para ir em casa sem que ninguém percebesse.
Em janeiro as moscas não davam sossego no apartamento, de se abrir todas as janelas, comprar leque, ventilador. De rosto afogueado, moreno, abriu sorriso daqueles de dente amarelo-feliz.
- Tem filho teu aqui, dentro de mim.
De cada arregalo de olho dele, mais se assustava. Mas um abraço todo suarento e inescapável a fez amolecer e até ajoelhar de agradecimento.
Cada dia mais fresco, agora ela botava barriga pra fora na janela, cumprimentava vizinha, crochetava, crochetava sem parar uma meinha, um pagãozinho, uma touquinha. Dormia tanto na frente da televisão que acordava de bochechas dormentes, enquanto ele arrastava chinelos encarnados, fumava belmontes e calava, calava.
Depois das cinco, nem tirou o robe, foi na venda e comprou umas fichas. Na cabine discou apressado.
- Me apeguei numa putinha preta. Ela vai ter filho meu.
Desligou devagar e foi arrastando os pés pela Dois de Dezembro, cada olho uma lágrima mais sentida que a outra.
Rebolando na cozinha, mexia a bunda e uma barriga redonda, o cheiro de feijão com alho fazia o prédio salivar. Chegava até a sapatear um pouco no chão de florzinha marrom.
- Hoje vou fazer Tutu.
Ele lá no quarto, na gaveta funda pegou um maço de cartas e colocou na caixinha de acrílico. Na cozinha ela chamou pelo apelido. Devagar, atendeu.
- Tenho mulher em Minas, preta.
Disse, esticando o braço com as cartas perfumadas. Virando de costas para o fogão, ela pegou a caixinha, trêmula como que só mulher que ama pode ficar.
- Eu sei.
Despejou tudo da caixa no saco de cascas de cebola, cabos de couve, laranjas podres. Apontou.
- Põe o lixo pra fora, benzinho.
Obedeceu: Pegou a sacola plástica e foi saindo do apartamento. Enquanto isso ela coçava o olho esquerdo. Fungou no pano de prato, colocou a massa preta na travessa bonita, de vidro.
- Já pus. - Parado, de mãos espalmadas, ele anunciava a evidência: Nada nessa, nada na outra.
Os pratos queimavam os dedos, fumaçavam a Copa pequena.
- Benzinho?
- ...
- Se for menina, há de ser Lara.
Posted 11:42 PM by RENATA CORRÊA
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006
BOM DIA.
Estranho mesmo é ignorar o dia e lamentar-se pela ausência de coisas grandiosas. Nada acontece, acontece tanta coisa e nada mais um pouco.
Chega a manhã e latem os cachorros. Uma vizinhança com tantos cachorros e tantas obras é um convite à aspereza matinal.
Chinelos.
Rosto.
Água gelada.
Café.
Pois antes das dez são dez cigarros. Antes de meio dia, meio maço. A cada passo me aproximo da máquina de piadas velhas, cobranças e sorrisos de ocasião; É tudo tão milimetricamente organizado para que ao menos você sinta algum afeto por aquilo. Que ao menos se identifique como mesmo enfado da mocinha na portaria, ou com o mesmo sarcasmo do encarregado. Ainda assim.
Café.
Segurança.
Corredor.
Eu.
Como se nada pudesse realmente acontecer, ignoro o rapaz de terno azul amarrotado que mesmo com fones de ouvido se levanta num pulo para me dar passagem no metrô. O fato é que nem olho na cara de alguém que poderia ser o potencial amor da minha vida, meu potencial assassino, meu potencial advogado. Mal sabe o pobre rapaz que independente do Mozart ou do novo Baba pop que ele ouve, assim que a porta automática se abrir ele estará morto num canto da minha memória. E viverá apenas neste papel amarrotado.
Eu.
Roleta.
Escada.
Rua.
E tanta coisa se mistura, e para que tudo isso e por que toda criança na rua é preta, me perguntou a prima pequena uma vez faz macarrão com carne moída não esquece por favor que o homem da tv a cabo vem não esquece por favor que eu nunca vou te trair a Cristina chega hoje: é o que cabe em duzentos metros e quando a chave gira tudo pára por que afinal, Cristina está na sala, a traição aconteceu e o homem da tv a cabo não veio. A vida se impõe, e quantos pés você pode bater para retardar isso? Não sei, mas dois não são suficientes.
Rua.
Noite.
Beco.
Ele.
Quando depois de tantas cervejas as pessoas contam coisas, as pessoas dizem olha quem está aí, olha quem está sozinho e você na verdade só queria ir para casa tão cedo que pudesse acordar antes dos cachorros e das obras, é por que o mundo quer te dar um pouco mais de anestesia do que o habitual, mesmo por que esse menino nunca chega só, vem com uma cafajestagem genuína que é a mais pura tradução da sinceridade; Numa tarde achei que era o hábito. Hoje à noite sei: é o meu centro gravitacional.
Ele.
Cheiro.
Mão.
Casa.
Um banho veloz e mais uma vez:
Bom dia.
Posted 12:49 AM by RENATA CORRÊA