Quarta-feira, Dezembro 14, 2005
A SURDEZ
Estão as coisas postas, no seu lugar. Pecado é desprezar sua utilidade, ela me disse uma vez. Caso eu me deite, caso eu desista, onde estarei?
Mas eu estou em algum lugar?
Um tiro para o alto é um desperdício: Arma, gatilho, cão, bala. Todo um mecanismo posto em funcionamento único e complexo com o intuito de destruir algo, seja órgão, seja organismo. A outra máquina: fígado, rins, intestino, útero, principalmente útero, inúteis. Dói a dor da carne, e como sangra. Impossível mensurar a coisa
Ruas e avenidas tingidas de vermelho.
Não nego, andei. Existe mal, e é esse que marca, na testa chega a escorrer - Andei demais, e agora a língua sibila, o trivial ofende. A ofensa é, e sempre foi o meio e a verdade. Até uma ode soa agressão. Houvesse modo de falar para si mesmo, estaria resolvido o problema, mas andei, e não andei por vontade, e agora que aconteceu é difícil mesmo suportar.
Bolhas e pus nas solas, queimado nas bordas.
Eu perdi. E não dói e não nada. Poderia aproveitar os dedos mais próximos do solo, os ombros curvados. Queria a terra, deitar no abraço úmido da terra, que seus vermes me zelassem, que seu frescor se compadecesse, sujar a falsa brancura com matéria viva, que a terra se integrasse ao corpo invasor, me consumisse e me fizesse nova, tronco forte, raiz dura, sedenta; Porém esse querer esmorece.
Até o chão rejeita a peçonha.
A água viscosa escorre. O líquido grosso é verde, é ácido, corrói pelos cantos, e o hálito da minha presença (oh!, essa parte é difícil de admitir!) faz murchar as flores mais valentes. Dentro, revira um bicho, maior que ela, maior que eu, que quer sair a qualquer custo. Revira-se pelas tripas, incha como peixe gordo, que ou explode o peito, ou me vai vazar pelos ouvidos, que é lugar dos indesejáveis.
A surdez, a benção.
Matar um animal pequeno, assim com as mãos. Um pardal, e sim, finda em nós o que finda nele. Um coração palpitante não seria tão diferente, seria quente, autônomo. Um dia, nossas unhas enegrecem, nossas barbas ficam rarefeitas, nossos pedaços vão caindo por aí, e nenhum tropeço de um apressado irá notar coisa alguma, pois pedaços de gente são abundantes até nos lugares mais quietos. E é nesse momento que alguma coisa dirá. Exatamente, e será simples, mesmo que escuro.
Dentro, mais do que fora.
E nunca haverá fim.
Posted 10:14 PM by RENATA CORRÊA