EU NÃO SABIA, MAS...
...sou do tipo que chora em casamentos.
Posted 5:23 PM by RENATA CORRÊA


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Não me pergunte por que me tornei o cúmulo do exagero. Tanto vermelho, tanto poço, tanta profundidade de botequim, tanto choro desnecessário. Sinto como se fosse eu mesma, mas fora: Apagou-se a luz da platéia, eu sentada na primeira fila, vejo eu (maquiada, de vestido, chapéu e botas, o cabelo nas alturas) no palco.
É assim, imenso, cada gota de sangue um jato digno de artéria. Mas é um arranhado no dedo.
É real, sinto, sinto, sinto. E nada está na medida. Todo amor, todo sexo, todo desprezo, o ceticismo, o misticismo. Minha sujeira, tão minha, tão cara, tesouros mínimos de trangressão burguesa.
Minha paixão, essa ação desmedida de retorno incerto, caminho lamacendo, afundando meus pés.
Sou tão grande e não caibo em mim.
Posted 8:56 PM by RENATA CORRÊA


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HIATO

Afaguei teu peito, e aliviou, aliviou o meu.
Dentro da noite, esse acordar faz muito mal: dois blocos de negro, um a dormir e outro a ser dormido. Um fragmento de dia que ainda não amanheceu. Meu bem, não foi um pesadelo, uma pena, uma pena. Foram reais todas aquelas palavras chispando no quarto, bateram em tudo, ricochetearam, a última foi bem na sua bochecha e sangrou.
Pode encostar sua mão agora, já tá cicatrizando, tem uma manchinha pequena no travesseiro, já lavei um pouco de tudo com aquela nossa toalhinha branca. E agora, durma, durma aqui, pois eu sei de tudo e de todas as coisas que você me disse nenhuma doeu tanto quanto essa sua boca fechada e essas suas pálpebras que escondem as pupilas semi mortas. Enfrente o resto das horas, profundo, ressonante, sólido como uma pedra. Aqui comigo, sei: deterioro apenas com a falta de uso.
Posted 9:48 PM by RENATA CORRÊA


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TO CANSADO
de levar tanta porrada tanto soco no estômago o fato é que é tanto que me oprime existem aqueles que enxergam o belo alguns podem até bem olhar o feio eu ah quanto desperdício de tempo energia esmago emociono tudo ontem acordei era como se alguém estivesse ajoelhado sobre o meu peito uma pressão ininterrupta sequer conseguia levantar alguém abriu a janela gritou meu nome numa solicitação trivial era o primeiro choro do dia tudo gira e passa as pessoas movem a casa compram e comem o pão e eu o que eu faço com essa vontade de simplesmente fechar a porta e sair ir pelos fundos sem recados deixando em mínima evidência aquilo que prova que um dia existi minha garganta seca e áspera denuncia que já deveria ter morrido de sede nunca houve tão pouca água.
[fôlego]
A vida não é para principiantes.

Posted 9:27 PM by RENATA CORRÊA


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VALDO

Entrou e pediu pra descerem um chope gelado, ali mesmo no balcão. Tá quente, tá quente demais - bebeu meia tulipa num gole.
Abriu os botões da camisa listrada de verde, simultaneamente com a outra mão coçava o saco. Os cordões tilintavam num balanço modorrento de uma tarde Tijucana.
Valdo esperava. O olho de Valdo varria cada pedacinho da ruazinha toda arborizada, cheia de crianças com mochilas, vovós com poodles, vovôs com suspensórios. Vez ou outra ele sobressaltava, mas logo engolia um pouco de ar, e sorvia o chope subsequente. Valdo cruzava a perna esquerda atrás da direita, um quatro ao avesso, mastigava um palitinho, cuspia o palitinho.
Malandro da Vila, malaco velho, sambista, apontador. O quadriculado improvável dos azulejos em azul e preto confundia-se com o minúsculo xadrez das calças de Valdo. Ali todo mundo sabia da reputação do cliente mais fiel da Casa Alberto. Passava a mão na cabeleira negra brilhante, o anel de ouro-rubi reluzindo, o lenço de cambraia enxugando o suor da expectativa, que cismava em brotar da testa morena. Era assim: ninguém perguntava muito de onde vinha aquela grana, e Valdo distribuía rodadas e rodadas de cerveja. Ninguém o aborrecia muito, mas quem se atreveu, evaporou num passe de mágicas.
Lá pelas bandas do São Carlos saiu um bloco homenageando Valdo. Ele passava a mão pela cintura, arrepiavam-se as espinhas: luzia um cabo de madrepérola. Nessa tarde, um velho magro preto tocou o sambinha de Valdo na caixa de fósforos. O olhar foi tão fulminante, que as moscas pousaram no lombo mais próximo, e ali ficaram com medo de zunir para perto das moelas. Hoje ele não queria nenhuma honraria. Nem ser reconhecido naquele papel.
Tum tum baticumdum tum tum baticum dum dum dum baticum dum e a cuíca começava lá dentro daquela cabeça bandida, Valdo largou o chope no balcão e correu para a porta. Tum tum baticumdum tum tum baticum, a cabeça do Valdo batia no compasso do peito, vinha ela, desfilando, na calçada. Tum tum baticumdum tum tum o Valdo se tremia todo, a professora passava. Tum tum baticumdum ele abriu a boca pra falar, a professora olhou bem na cara dele. Tum tum, a professora vira o rosto, Valdo atira: TUM!
Uns pombos voam, voam envolta de Valdo. A professora corre no compasso da sua cabeleira cacheada, passista em desfile atrasado.
Caído no chão, ele chora uma dor daquelas fundas.
Valdo [amava].

Posted 7:02 PM by RENATA CORRÊA


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