Quarta-feira, Julho 27, 2005
(E se eu tivesse um filho? E se eu andasse à pé?)
Encolheu o corpo, o lençol a incomodava. Sentia-se imóvel como a cama, e seu centro, também era áspero.
Não havia organismo vivo, pulsante que pudesse tirá-la da letargia. Uma vez viu uma lesma, estagnada e fria na janela (nem repulsa, nem pena), e percebeu que ela fazia uma pequena sombra. E só. As vontades: chupar gelo ou limão, colocar um dedo numa vela ¿ eu preciso sentir algo ¿ mas o erguer de um dedo era tão penoso, era preferível decorar as manchas de umidade no teto. As ranhuras. Dera-lhes nomes. Eram uma grande família de espaços abertos. Ela mesma era um hiato, só não sabia quais bordas a limitavam.
É que toda gente anda sob o céu, e sua, e tem sorrisos. A idéia causava-lhe tal náusea que às vezes gostava de pensar nisso, só para poder colocar a mão sobre o estômago e senti-lo revirar. E ainda sim, raro. Carregava desde o útero um cansaço pelo mundo, o enfado inevitável, sentia o peso curvar os ombros: atração irresistível pelo solo. Foi aí que resolveu deitar-se. No início também falava, mas passou aos murmúrios, e depois ao silêncio.
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Sabia da existência de um demônio. Quase nunca pensava nele, o medo haveria de despertar a fera, podia imaginar as garras e os dentes afiados, a saliva quente e ácida escorrendo pela pele, o hálito fazendo-a levantar, mecânica. Um demônio ao meio-dia, pensava, a face branca, refletindo toda luz, impedindo de ver as feições.
Sabia do medo, apenas o medo do demônio. Recordava-se dele toda vez que o coração acelerava, algo palpitante em seu corpo, alguma contração muscular, involuntária. Então a imagem dele vinha e a impelia. Não era um pesadelo.
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Olhou dentro. Para fora, só o branco. Tateou então o inox gelado, abriu a janela. Apoiou-se na cama e subiu devagar, os dedos retesados, equilibrados desajeitadamente. Encarou-o pela primeira vez, dentro do olho, tempestade. Foi fundo na íris, com o indicador. O bafo quente do demônio a atingiu e girou pelo seu corpo, fazendo-a flutuar. Era como o sono, profundo, cálido. Num instante um salto infantil, os braços abertos de um mergulhador, um sorriso sincero.
Havia um pouco de sangue na calçada.
Posted 6:19 PM by RENATA CORRÊA
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