Quarta-feira, Junho 29, 2005
Sem computador próprio e com o tempo curto, tá difícil. mas não abandonarei o M-E. Trabalho novo, em outra cidade, muitos semi textos com potencial, engolidos por um HD mau e faminto. Mas ainda existe o Aquele, e muitas esperanças de organização cotidiana. Quem sabe eu não mudo o template?
Posted 10:00 AM by RENATA CORRÊA
Quarta-feira, Junho 15, 2005
[Sem Título]
Foi numa feira, em pleno verão, o sol ainda bom. E o ar o afogando, de respiração profunda e ritmada. O mormaço, nos olhos ilusão de deserto, via água, tanta água... Torturou uma fruta entre os dentes, era a função da fruta, mas não deixou de pensar nas que apodreciam, ou verdes ainda. Andando pela Glória, pisando nas poças, a sandália suja, a feira, cinza e feia, de caixotes. Era bom, era forte, e via, não com os olhos, mas como cego, tateando no escuro profundo e infinito, a descobrir as coisas e o arrebatamento.
Estava tão glorificado ao caminhar - completamente preenchido pelo não-saber - era tela viva e pronta. Lembrava da criança que era, magra, de grandes dentes, e do silêncio profundo que estava quando descobriu-se gente. Assim era agora, e sorriu: estava no fundo do silêncio que precede as grandes descobertas, num poço úmido e agradável, com pedras redondas, lisas e limo macio.
Mas se alguém gritar na boca do poço antes da revelação? Agitou-se levemente, um curto tremor o atingiu. Sentiu as pedras lisas vibrarem à mesma condição.
Abriu os olhos então. Acordou na Marina, como de um transe. O mar o esmagava, o mar, era tanto azul branco para quem havia acabado de acender a luz. Dilacerado. Estava com a pele em carne viva, via e vivia. Como se o mundo se apresentasse num espasmo doce e feroz. O besouro naquela folha não era um besouro, era, e de tanto ser, transbordava-se. Assim era o besouro, assim ele próprio. Todas as coisas doíam, até. E o prazer de mundo, tão insuportável, já não podia mais com seu tamanho, pequeno era diante desse gordo segredo que se escondia até dentro de coisas tão insignificantes. Já nem mais sustentava-se nas pernas. Abraçou a si próprio e deixou-se cair de joelhos, em plena gratidão.
Era poeta e agora o sabia.
Posted 8:42 PM by RENATA CORRÊA
Segunda-feira, Junho 13, 2005
A forma mais cruel, lenta e dolorosa de morrer, é vivendo.
Tenho dito.
Posted 4:08 PM by RENATA CORRÊA
Quinta-feira, Junho 02, 2005
(Em homenagem ao aquele, que faz seis meses, meu primeio texto publicado lá. Visitem, visitem a nova edição, tá muito boa. É só clicar aqui!)
DISRITMIA
- Tem bíblia aqui, tem? Então pode pegar. Não tô com pressa.
Mas se eu contasse pra ela que eu queria devagar, que é a última vez e ainda sim um frio na espinha, não consigo concentrar, mas eu quero tanto que seja bem feito, na verdade da melhor maneira, como eu nunca fiz antes e ela nem vai saber, nunca vai - por que pra ela eu sou só mais um capítulo da tragédia que vive todo dia, que não cessa, só mais isso.
- Vai, vai, na gaveta, eu sei que tem, não enrola.
Só confirma a teoria de que toda mulher é igual, ou suplica inutilmente ou se entrega sem resistência. Eita troço deselegante, ainda mais quando elas caem de lado, boca aberta, eu nem gosto de encostar, depois de anos ainda sinto um cheiro estranho que sobe no exato momento.
- Escuta aqui, mocinha. Eu não sou teu pai, certo? Nem vim aqui te foder, meu negócio é outro. Não acaba com meu dia, nem com a minha paciência.
Por que antes eu jamais aceitaria uma bosta como essas, vir pra esse lugar nojento, ainda ter que ficar vendo essa cena patética, essa carne toda trêmula, esse olho que não sabe o que faz.
- Lê, lê. Foi você quem pediu, agora lê.
Mas é tão imbecil adiar a hora, mas tem gente que acredita em milagre, eu não vou estragar o prazer de ninguém, ainda mais por que eu quero que ela fique assim à vontade.
- Você escolheu um belo salmo, meu bem.
Conselho porra nenhuma, eu morro um pouco aqui e ela nem desconfia, é um pouco sobre o tempo que eu falo, minha vida começa aqui. Ah, se eu pudesse exorcizar um por um de meus demônios depois da última bala, não que eu me arrependa, e de fato não existe remorso nenhum que me corroa, é apenas desperdício, adiantar um movimento que a natureza mais cedo ou mais tarde se encarregaria de executar.
- Faz assim então...
Chega a ser engraçado ver como de tanto em tanto todos eles são iguais e ainda lançam pra mim esta última pergunta, como se importasse saber de fato. Eu cuido disso, eu poderia ter sido médico ou padre, ou quem sabe até médico de criança, pois tá aí um troço que eu sei fazer direito.
- ... vira de costas...
Vira de costas e ignora o mundo, vai. Por que quando eu sair daqui nada vai mudar, vai continuar essa disritmia, e mesmo se nunca mais, e talvez eu possa nunca mais fazê-lo, isso já estava decidido, não importa agora, o que eu quero saber é como sair daqui e viver sem isso - pois meu coração só sabe bater assim, e caso eu fique muito tempo, assim parado, talvez eu morra, talvez eu adiante a própria natureza, talvez a morte seja minha dessa vez e por mim provocada...
- ... e conta até dez.
Não resisto. Não vou fazer diferente, não dessa vez.
- ...
Eu sempre atiro antes deles começarem a contar.
Posted 6:04 PM by RENATA CORRÊA
Quarta-feira, Junho 01, 2005
#5
Nosso pequeno livro de contos mensal agora tem domínio próprio.
O Aquele agora é .com.br. Um luxo.
Edição imperdível de tema livre.
Fausto Uehara na ilustração.
Max Sachetti como convidado.
Renata no baixo, a big band completa. Pra ler com os ouvidos.
Posted 12:36 AM by RENATA CORRÊA
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