PARA G.

Não me pergunte por que eu continuo a andar. Sei que não tenho mais grana, que meus sapatos tão furados.
Essa gente toda não sabe o que fala, meu bem. Desde que comecei, soube que seria assim. Vou negar que é ruim comer nestes botecos de beira de estrada e acordar pensando onde vou dormir? Mas é aí que reside meu desejo.
Sim, poderia estar na casa de minha mãe, ou até mesmo na minha própria. Mas o que me importam os convites, os salões, as mulheres que sorriem por conveniência? Aqui, eu sei que é real. Não existe nenhuma força que me empurra ao cotidiano, à morte.
Tenho três pares de meias, um par de luvas para os dias de frio. Aquele cachecol que você me deu, usei como toalha quando passei pela BR - 429. Não fique triste, eu precisei. Triste pra burro é ver que esse meu tonto, torto, te corta de algum jeito. Mas se eu não contar para você, vou contar para quem?
Tenho vinte e dois anos, e só um endereço para mandar minhas cartas. Se você chorar, não mandarei mais. E triste serei eu.
Ganhei um par de gatos de porcelana faz dois dias. Uma mulher disse que daria sorte, mas eles até agora não se manifestaram.
Só me dá um bruta medo de quebrar. Quem sabe um dia não os mando para você? Mesmo de longe funciona, ela me garantiu. Mas sorte para você, seria que eu tocasse sua campainha. Isso não vai acontecer, não agora. E você não sabe o bem que estou te fazendo. Serei melhor.
Antes de terminar, tenho uma confissão. No dia do seu aniversário fiz um brinde à mulher mais bonita que conheci. O bar estava cheio e tinha uma juke box. A dona, uma senhora muito simpática, deixou que eu pregasse a sua foto lá no alto, do lado de um São Jorge. Quem sabe um dia você não vê? Ficou tão bonito do lado daquela luz que deu até um nó na garganta, moça. Mas eu não chorei. Não se zangue, tenho outras fotos suas. Inúteis é verdade. Para que as fotografias se é você colada na minha retina cada vez que eu fecho os olhos?
Mande abraços para Joana. E para Fernando.
Para você, mando um pedaço do cabelo que cortei em Curitiba.
E não deixe papai ler essas cartas. Com certeza fingirá algum mal.
E por favor, não me espere,
Do seu,
A.

::

PARA A.


Querido, sinto dizer, o tempo, nada mais que o tempo.
Também andei, você sabe. Mas os caminhos foram de uma estrada que por suas escolhas, jamais tomará conhecimento.
Na última vez que nos falamos a ligação estava chiada, sua voz estava tão longe...Dizem que as linhas telefônicas no Catete estavam com problemas, mas eu acho que não foi por isso.
Soube do lançamento do seu último livro. Obrigada pela dedicatória. Claro, que apenas nós dois sabemos que a "jovem da fotografia" sou eu. Mas houve um atraso. Eu não sou mais aquela. Então afirmo: Nós não sabíamos de nada. E ainda não sabemos.
Quando Joana me entregou, não tive coragem de abri-lo. Continua o livro, morto na cabeceira. Essa história eu já vi várias vezes através das mensagens que você deixava para mim por aí. Para que ler adivinhando parágrafos, não é mesmo?
Lembra da casa no Flamengo, quando eu conseguia saber pela buzina que o carro era seu? Eu descia correndo, e sua mãe achava que eu tinha algum tipo de sexto sentido, hilário. É isso que acontece, eu te adivinho. Você ao meu lado seria uma redundância. Nós nunca gostamos de redundâncias...
Não entenda mal, claro que você ainda pode me surpreender. Mas eu não preciso mais, é isso.
Sabe, Julia adora aqueles gatos de porcelana. Eles ficam em cima do gaveteiro. Claro, ela ainda não tem altura, mas de tempos em tempos cisma em fitá-los, tão iguais. Quando ela sorri, fica com os olhos apertados, pequenininhos, como os seus. Incrível a semelhança sem nenhum laço de sangue, não é mesmo? Você deveria vir visitá-la um dia. Afinal, nos prometemos, se fosse menina, Julia. Mas só eu cumpri.
Meu doce pequeno burguês, aqui estou fazendo uma revolução que você jamais ousou sonhar. Nunca precisei de grandes utopias para poder mover o que está ao meu redor.
O mundo mudou. Mas não é esse, meu bem, nunca foi.
Da sua,
G.
P.S: Espero saber notícias suas. E não quero precisar ler o caderno literário de Domingo para isso.

Posted 1:01 PM by RENATA CORRÊA


Pílulas:


50's Rock'n' Roll

Oh, você é meu herói, sim, é.
Uma aranha desceu preguiçosamente do teto. E a chuva fez um estrago, pois a janela estava aberta.
Sim, baby, era você.
1, 2, 3, 4 [aqui vc pode contar na língua que quiser, recomendo o inglês], eu vou pra onde você for.
Uma aranha desceu preguiçosa do teto.
E faz sol, querido, hoje faz sol.
Posted 11:55 PM by RENATA CORRÊA


Pílulas:


1969

- E gelo tem cheiro?
- Tem, mãe.
Minha mãe fazia um ar divertido enquanto perguntava para mim e para a minha irmã qual era o cheiro que eu sentia. Na descida do Aeroporto, em Santiago, o frio cortava o rosto, com o vento nos narizinhos cariocas, acostumados, no máximo, com a brisa quente da praia.
- Seu pai disse que nós podemos esquiar.
- Mas mãe, eu prefiro patins.
Minha irmã ainda não tinha se conformado com o abandono dos patins na corrida louca para o consulado. Eu não entendia também, chegamos da aula e minha mãe sentada no chão, em frente a uma fogueira na nossa lixeira. Duas mochilas, mais gordas que o habitual, em cima do sofá. Nunca consegui esquecer o sufocamento que me provocou a fumaça. Anos depois minha irmã disse que era cheiro de história queimada. Eram os livros de papai. E todos os artigos que ele tinha feito pro jornal. Mas a gente não sabia disso. Endereços, agendas de telefones, diários. Minha mãe pediu nossas carteirinhas de colégio e alimentou a chama a última vez antes de sair.
Três ônibus e uma caminhada de quarenta minutos, um táxi. O prédio imponente, guardas na calçada.
- Laura, Ana, quando a mamãe falar já, vocês correm, tá? Só podem parar depois do portão verde. E não olhem pra trás.
Não ouvi nada depois do já. Corri segurando a mão de Laura, pequena e quente, pulando meio fio e um canteiro de florzinhas cor de violeta, que passaram tão rápido, que não sei até hoje dizer quais eram. Passamos o portão e viramos pra olhar. Minha mãe vinha em corrida desabalada. Tropeçou, mas entrou no consulado. O Carabineiro chileno a levantou e colocou um lenço no queixo que sangrava. Um guarda de azul do lado de fora, apontou a arma para dentro do jardim do prédio, murmurou "bum". E saiu malhumoradamente pela calçada.
Depois disso, não lembro muito. Só de Laura, deitada e suja, no corredor lotado, umas enfermeiras de sotaque engraçado, umas senhoras que jogavam sacos de comida pelo muro durante a madrugada. E o avião.
Mamãe nos colocava camisas, e mais camisas, casacos, cachecóis e toucas. Um ritual. Dormiu, a coitada, segurando um bilhete do meu pai de forma tão firme, que quando acordou, a mão estava ferida nas bordas, pelas unhas.
- Então, gelo tem cheiro de que, filha? Minha mãe não escondia mais o nervosismo com sorrisos, e olhava pra todos os lados. Mas não terminou a frase. Laura corria na direção de um fofo casaco preto, que continha um homem mais barbudo e mais magro do que deveria.
Talvez de encontro, pensei esses dias. Mas eu não respondi.

Posted 6:29 PM by RENATA CORRÊA


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E é tão difícil aceitar cartas rasgadas, quem escreve mente, não são as palavras. Elas estão lá, se repetem, e dizem a mesma coisa, todo dia, cada dia, se reafirmam, perdem dimensões, empobrecem, mas não mentem jamais.
Seria dor pensar que talvez eu pudesse? Mas é um fim, carrego os papéis embolados no peito, esqueço das traças que brotam nas palmas das mãos - quão mais firmes seguras, certa a destruição.
E fui logo eu a tola a acreditar em cartas de amor, trocadas tão sinceramente que sorriram como se o mundo as obedecesse. Eu, que num pátio jurei nunca mais, e depois, não mais a lembrança e nem mais a traição do próprio peito, e não mais saber dessas certezas tão voláteis e eternidades de segundos.
Como é duro voltar, como é. Como foi que aconteceu? Sei que num segundo eu vi, fora do corpo. Como um espírito brotando na casa de avó. E como cheiro, e foi assim, segui, reconstruí, montei. A farsa anunciada, um Moliére de péssimo gosto, a cola usada, velha e gasta, não sustentou tantos pedaços meus colados nos seus.
Vivo de chão novamente.

Posted 8:58 AM by RENATA CORRÊA


Pílulas:


Eu só sei escrever meu próprio nome.

Eu só sei usar meu próprio nome.

Eu só sei ser meu próprio nome.

Eu só sei escrever.

Meu próprio nome.

Estou aqui.

Previsível.

Carne.

Posted 2:03 PM by RENATA CORRÊA


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DROPS DE CINEMA

Uma perna muito, muito branca. Uma gota vermelha escorre, um caminho-mancha se estabelece até quase o joelho.
Um dedo a interrompe.
Um dedo-boca emula uma excitação culpada.
O lábio vermelho. A pele branca.
Posted 9:12 PM by RENATA CORRÊA


Pílulas:


O BOLERO DE RAVEL.

O céu azul é uma abstração, disse o francês sonolento. Paris é branca. O céu é branco.
O Rio sem sol é triste, o Rio é sempre triste, mas o céu é azul, e eu não tenho paciência para te contar. Olhe a janela, é azul. Branco. Branco é você, bunda branca, sua unha se confunde com o seus dedos que se confundem com a palma da sua mão.
- Eu vou embora, querido.
Nunca sei como essas calças ficam tão amarrotadas, e essa camiseta é mesmo uma maravilha, nada de suor. Eu penso em me lavar, sei lá, um perfume ao menos então, não fica bem sair assim pra casa dele. Se realmente importasse não precisaria procurar as chaves do carro, agachada ao lado da cama, como posso ser tão patética?, eu não vou levar essas meias, olha o estado das minha meias! Presente pra você, Francês.
Tenho que parar de olhar no espelho, todo mundo vai perceber que estou com essa cara de será que alguém percebeu que eu trepei, será que tô vermelha, será que meu olho está meio aberto demais, essa cara assim é inconfundível. Mas por que diabos alguém olharia pra minha cara. Paranóia.
É o ar condicionado do carro. Está muito forte. É por isso que meus peitos estão assim. É tesão por você, meu amor. É sim. Eu não posso dizer que estou com tesão que ele vai querer transar e eu não quero transar, porra, eu vou terminar. E não tenho que ficar pensando justificativas, lárárá, o idiota acha que me controla, ó [filho da puta não sabe dar seta, filho da puta, se me cortar de novo vou atrás de você], esse ciumezinho idiota.
Eu não vou mais namorar com um corno, eu não suporto olhar praquela cara e pensar: corno!, meu homem é um corno.
Cadê os cigarros, hein? Esse porta-luva sempre emperra, que ótimo. Isso, isso. Quem sabe o cigarro não dá uma disfarçada nesse cheiro de porra de Francês? Pega ele no aeroporto, deixa de ser babaca, é só levar o cara até Copa. Nhénhénhé. A Mila e essa mania de casinhos com gringos, gringos filhos da puta que ainda por cima comem as amigas dela. Vai chegar lá e vai lamber os dedos do Francês, cheios de mim ainda, a boca do Francês, a bunda branca do Francês.
Esse porteiro é alguma espécie de idiota, venho aqui todo dia e ele ainda não sabe com quem que eu vim falar?
-- Juliana, moço. Pro Márcio, do 402.
Eu sou sempre prum Márcio do 402. Não quero mais Márcios do 402.
- Oi querida, entra, entra, tenho uma coisa pra você. Que cara é essa?
Que cara é essa? Que cara é essa?
- Nada não. Amo você.
Posted 10:21 PM by RENATA CORRÊA


Pílulas:


- É que eu moro na estrada da Posse, eu digo para o mundo que eu amo você -
(Rap da Estrada da Posse, MC Coiote e Mc Raposão).
- Se não é o amor que nos unirá, será a bomba -
(Ask, the Smiths)

Teoricamente, este é um blog literário. Mas eu acho que isso é só teoria mesmo. Por que ontem escrevi um texto sobre pessoas de classe média. Eu sou uma pessoa de classe média. Era um texto também sobre relacionamento. Eu gostei muito e guardei para postar hoje.
Mas quando eu acordei - maldito e velho hábito de ouvir o rádio - descobri que vinte e nove pessoas haviam sido mortas numa chacina na baixada fluminense. Os atiradores começaram o seu serviço no bairro da Posse, em Nova Iguaçu e foram, dentro de um Gol, matando quem passasse pela frente, até o bairro de queimados. Muitas crianças e adolescentes entre as vítimas. É a maior chacina desde Vigário Geral.
Uma vez fui a Vigário. Anderson, um dos vocalistas do Afro Reggae, explicava: Não existe ninguém que more aqui que não tenha perdido alguém. Esse tipo de acontecimento me choca profundamente. Quantos Pixotes ainda precisarão nascer e morrer para que possamos andar com tranquilidade nas ruas, sem medo de assalto, polícia, ladrão, bala perdida? Quantas chacinas deverão acontecer para que outros Anderson subam, orgulhosos no palco, propagando a sua luta pela Paz?
Segundo os jornais, a chacina aconteceu em represália à prisão de quatro policiais, reconhecidamente integrantes de um grupo de extermínio naquela área. Foram filmados decapitando um homem atrás do batalhão, e jogando a cabeça dentro da delegacia, por cima do muro. Hoje, foram presos mais oito. Talvez, se esses oito não estivessem soltos, se a investigação fosse prática constante e não evento ocasional, pontual, pautado pela sorte.... SE. Temos um Estado refém e uma população refém, e sinceramente, não vejo saída. Somos vítima da ditadura mais cruel que pode existir. Onde o ditador é cada um que anda na rua ao seu lado. O grande tirano, que te esmaga, tá dentro do ônibus, nos metrôs, ao seu lado no trabalho e até dentro da sua casa. Ele está em você. A cada segundo, eu coloco uma pá de cal na solução, eu classe média, eu com medo, reproduzo todos os comportamentos que racham essa cidade ao meio e esse abismo, antes largo, agora é intransponível. Com perdas ireparáveis dos dois lados e nenhum vencedor.
Por que quando uma casa é invadida em frente ao Itanhangá Golfe Clube, quando eu sou assaltada na minha rua, quando uma Camila é baleada na volta da escola, quando uma Gabriela morre nas escadarias do metrô, quando acontece uma chacina, quando matam uma criaça numa troca de tiros no Complexo do Alemão, não podemos duvidar do quanto somos iguais, carne, que apodrece. Todos iguais, vítimas dos mesmos erros cometidos há anos. Pela sociedade e pelo poder público. Vítimas da dor que corrói ao velar nossos mortos.

Posted 9:33 AM by RENATA CORRÊA


Pílulas:

Aquele de quem lhe falei
Além do Umbigo
Asas de madeira
Áspero é o teu dia
Bebo sim
Bloco do eu sozinho
Cambalhotas de irrealidades
Diário-AVATAR
Fernando Flack
Forsit
Liberal libertário libertino
Meu Paredro
Metrolinguagem
Moacir Caetano
O passo que se apressa
Poetizar3
Porta Aberta
Post Scriptum
Renato para Senador!
Sentido-Abstrato
Se ferrou, madame!
Seu dinheiro de volta
Tatiana Vieira
Tequila Sun


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