Terça-feira, Fevereiro 22, 2005
OUTROS, PARTE VII
Entrei na sala com um medo que antes nunca tinha me ocorrido poder existir. O disquete na minha pasta, esquentava, ardia, pulsava, um organismo vivo, que me hostilizava. Comecei a suar.
Sentei na minúscula ante-sala, minha saia se ergueu o suficiente para que minhas coxas ficassem grudando no estofado de couro falsificado, aquilo tudo começou a me dar uma certa náusea, então revirei a bolsa, engoli uma pílula de prozac e peguei o manuscrito.
Marcelo e Eu corremos até a calçada, havia apenas a marca do pneu no asfalto, e eu, que nada sabia comecei a entender que se não entrasse naquele jogo poderia me dar mal, muito mal. Peguei a arma, e entrei na frente do primeiro carro. Marcelo espancava a porta do lado do motorista.
- Sai daí porra! Berrei, quase inconsciente, dei um tiro pro alto e apontei pra cabeça da motorista.
A mulher saiu do carro, eu corri para o carona e Marcelo, antes de entrar, empurrou a vagabunda no asfalto.
Nem eu sabia que tinha escrito aquilo. Uma gota de suor, grossa e decidida, caiu na têmpora esquerda em cima do papel manchando o rodapé onde se lia "Outros - um romance policial de Hannan Roberts - 40". Página quarenta. O que será que Sampaio iria achar disso? Já me sentia ridícula o suficiente usando esse pseudônimo inventado pela editora. Policial brasileiro não vende, querida... Disse a secretária gorda, responsável por organizar a distribuição. Disse isso, rindo e desrindo, mastigando um pão doce de creme, os flocos brilhantes do açúcar fustigando meus olhos. Mas agora o mal estava feito.
O carro cruzava a estrada principal da cidade de forma violenta. O carro azul, dirigido pela mulher do meu primo. Ela virava sucessivas esquinas e Marcelo não conseguia alcança-la. Num pulo, meti meio corpo pra fora e comecei a atirar.
- Ana Cristina Abreu, pode entrar.
Levantei e minhas coxas descolando da poltrona pareciam esparadrapo. Aquele barulho acabou com o resto de confiança que restava em mim. O ar condicionado fortíssimo da sala quase me levou ao colapso. Sampaio, percebendo a minha cara ruborizada pelo calor estendeu uma caixa de lenços de papel; recusei num gesto mecânico.
- Sampaio, eu preciso saber o que a editora achou da primeira versão, eu preciso, olha, no disquete está a versão formatada, aqui está o manuscrito do segundo tratamento, com as alterações que você me pediu, Sampaio, fala alguma coisa, porra!
- Cris, minha amiguinha, calma. Você é um talento na sua geração, você sabe, calma, vamos conversar, olha bem para aquele relógio na parede, temos todo o tempo do mundo...
Dois tiros acertaram no vidro. Um, pegou no pneu, o barulho do estouro fez os pedestres correrem, um cara cair de bicicleta. Marcelo virou o volante e bloqueou a passagem. A mulher saiu e acendeu um cigarro.
Acendi um cigarro. Inconsistente. É isso que o Sampaio tem pra me dizer. Meu protagonista é inconsistente, Sampaio? Porra, Sampaio, ele tem amnésia!
- Não tem mais, Cris. Semana que vem, terceiro tratamento.
Olhei incrédula para Sampaio.
- Semana que vem, querido.
Disse apagando a guimba naquela mão cheia de anéis. Sampaio abafou um grito de dor e com um meio sorriso disparou: Semana que vem, Hannah.
Passei pela recepção, e joguei o disquete e o manuscrito na mesa da gorda - Enfia no cu - disse, contente.
Cheguei na calçada, liberta. Fui caminhando para casa, quando senti um violento tapa na cara. Apoiei meu corpo na parede de um banco, sem entender. Era uma mulher com um corpete vermelho, e calça de couro.
A mulher de Marcelo, sorria.
- Meu amor, confia em mim.
Eu continuei apontando a arma para a cabeça dela. Mas Marcelo fez um gesto pra que eu a baixasse. Ela andou até uma mulher, que caminhava displicente, e enfiou-lhe um violento tapa na cara. A mulher apoiou-se na parede, desnorteada.
- Vagabunda, a culpa é sua.
Segunda que vem, essa história continua no Forsit.
Posted 10:23 AM by RENATA CORRÊA
Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
DAS RAZÕES
: da mesma maneira que você me conta, eu renego. Eu tenho coisas, e abismos, e uma certa mania de andar na contra mão. Uma certa irritação com esse hábito analítico e umas gargalhadas disfarçadas de grande dor [sístole, diástole] para que alguém perceba e sinta um pouco de pena.
Não que eu seja digna de pena. Mas é divertido provoca-la nas pessoas e logo depois reerguer-se. É a estratégia da imagem forte.
Bom, essa é uma das coisas que gostaria de contar. Amanhã falarei sobre o dia em que estourou um copo na minha mão. Espero que ouça com atenção, não gosto de repeti-las.
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Bom, depois dizem que eu não sou
trágica. Olha só o que buscam no google e acham meu blog. É de chorar.
Posted 11:18 AM by RENATA CORRÊA