Domingo, Janeiro 30, 2005
...fragmento...
Mas se por um segundo apenas eu pensasse escrever para todas as pessoas, talvez fosse mais fácil. Mas minhas palavras tem mania de ter endereço.
Posted 7:15 AM by RENATA CORRÊA
Quinta-feira, Janeiro 27, 2005
ELES SÓ PENSAM NO AQUELE...
Mais uma edição no ar. O tema, "fácil, fácil", é sexo.
E mais uma vez os colunistas se superaram, tem do mais romântico e byroniano até o mais vil, perverso.
Como convidada, a talentosa Ligia Diniz.
A editora da vez é a Grega, que abraçou a causa e fez todo mundo pensar naquilo.
Vale conferir.
Posted 12:14 AM by RENATA CORRÊA
Segunda-feira, Janeiro 24, 2005
INDOLOR
Um tanto pior quando é com música. Nos primeiros acordes, você vai lá, identifica e cantarola, antes da letra. Estranho arrependimento de cantar antes.
Vai ver é por isso, esse medo de coisas eternas, e certezas, e essa mentira contada sem parar para que acreditem que eu sei daquelas coisas, das quais na verdade não faço idéia - e quem sabe convencer alguém (fica ao meu lado, eu entendo, eu vejo, antevejo, descubro) - quando, de fato, aparecem duas ou três dúvidas a cada minuto, e eu nunca as coloco no lugar onde elas devem ficar.
Vai ver é por isso.
Pois quando é música, mesmo errando a letra, em segundos, nova estrofe redentora, ou até uma possibilidade de conserto se o tropeço for no refrão. Mas nunca é música. E fica essa sensação de por que não é, e o costume de ir, apenas. Não importa o equívoco, mas com quem comete-lo, afinal, sempre fui boa em praticar os desse tipo, os de fácil perdão.
Mesmo espremendo as realidades todas em um pequeno espaço - que eu considero o menor de todos - algo escapa.
Vai ver é por isso.
Que não tenho cara de.
Que não aparento que vou.
Que não pareço que.
E eu me repito tanto, tanto tempo, que vá lá, não é tão ruim, e não existe mais esforço algum em faze-lo.
E eu faço. E não incomoda mais. Mesmo quando dizem, passa, basta mais uma noite, basta ouvir que talvez seja mesmo bom que eu esteja. Claro, uns resquícios sempre atrevem-se, e ainda assim é só não olhar com toda atenção, eles não merecem mesmo que alguém olhe.
O problema é o barulho que eles fazem.
*****
Espaço publicitário: Mais um capítulo inédito da grande, poderosa e fenomenal LIGA. No Forsit, com a Olivia colocando o personagem pra pensar um pouquinho.
Posted 6:50 PM by RENATA CORRÊA
Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
VIVENDO E APRENDENDO.
Quem diria, quem diria: Roland Barthes era grego, e não francês.
Posted 12:07 PM by RENATA CORRÊA
Segunda-feira, Janeiro 17, 2005
MEGA LIGA
Começou aqui.
OUTROS, PARTE 2.
Contei os dedos dos pés. Os dedos das mãos. Apalpei a face, a nuca.
Apertei os olhos, e contei até dez. Não havia espelho, mas agora
sabia, era o mesmo. O mesmo cabelo preto, oleoso, a mesma pele pálida.
Podia adivinhar minha íris triste, embotada, meu peito franzino e
branco, branco, e os pêlos espalhados em tufos desconexos pelas
costas, braços, face.
O asfalto quente do dia começava a queimar minha pele, e o sol
castigava meus ombros. De tanto tempo ali parado, eu já não sabia que
horas poderiam ser. No relógio que costumava marcar as horas, ali na
esquina, apenas letras gregas sucediam uma após a outra, sem nenhum
sentido aparente.
Não, não cairia em desespero. Além de tudo, sabia que não havia mais
nada a perder. Sabia meu próprio nome, e isso era um bem valioso. Por
que diabos o velho me chamou de Alan? Bastava saber como voltar. Pra
onde voltar. Será que tomei diazepan demais? Ou sofri algum acidente?
Procuraria um órgão público.
O primeiro passo era esconder-se. Depois, arranjar algo para vestir.
Fui me arrastando pelo jardim, até uma rua lateral, estreita. Um imenso
latão de lixo ocupava metade da calçada, e corri até ele com fúria e
esperança. Pendurado, jogava restos de papel higiênico, cacos de vidro
e comida para o alto, procurando, procurando.
- Te colocaram pra fora de novo, Alan?
Uma mulher ria debochadamente, o cigarro num canto da boca, a blusa vermelha, um decote abusivo, lápis de olho borrado. Com certeza havia saído de uma grande noite. Eu, patético e nu, olhava.
- Vim te buscar. Soube que os caras estão atrás de você de novo. Dessa
vez não tem erro, baby. Se eu fosse você pediria pros otários levarem
tua filha da cidade.
Olhava apenas. Não havia reação.
- O que você tomou? Não enrola, babaca, é segunda vez que te encontro
catatônico com esse pau de fora no meio da rua. Agora que tudo pode dar certo você vai fuder a gente, é?
Arrastado para o pequeno carro amarelo, fui levado pelo cansaço no banco do carona. Ela dirigia, eu olhava o céu, as nuvens ligeiras, estampadas como estrelas.
Continua aqui, dia 24 de janeiro.
Posted 1:43 PM by RENATA CORRÊA
Terça-feira, Janeiro 11, 2005
AO TELEFONE
- Contorcionismos S.A, boa tarde!
- Olá, boa tarde.
- Em que posso ajudá-la?
- Gostaria de saber se vocês tem uma aula para desentortamento de textos, mas tem que ser daquelas, tipo, segundo grau em três meses, por que o escrito está bem disforme, e eu preciso entregá-lo em breve.
- Vou verificar, senhora. Aguarde alguns minutos.
- ...
- ...
- (bocejo)
- Senhora, não posso ajudá-la! Essa aula foi extinta após a semana de 22. Lamento.
- Oh, não lamente, obrigada.
- De nada, volte sempre.
Posted 4:52 PM by RENATA CORRÊA
Sexta-feira, Janeiro 07, 2005
- Sem Título -
Mais que um tombo, acho, um encontrão, talvez um simples esbarro, mas não foi essa a sensação.
Foi no mundo em Botafogo, e ela, a mão branca, branca, na perna preta. A perna preta apressada. Apressada e culpada, um tanto quanto arrependida, a perna. De tão, tão, dobrou-se, para então revelar peito, ombro, um pedaço de cabeça. Pois a dona da mão, que de tão branca doía o olho, estava com a cabeça enfiada em panos e prantos, mas pranto seco, que é coisa de quem sofre há mais de setenta e duas horas.
Pronto. Agora nós duas estávamos iguais. Sentadas na calçada em Botafogo. Mas não existe choro árido assim que resista à pergunta. Ainda assim a barreira da língua, mas duas sempre sabem, quando são mães. Mesmo que uma nunca tenha tido o filho. Justifica, sim, um palmo de pele enrolado em fraldas, que mesmo mudo, e cego, consegue impor em toda a sua força e placidez.
(Quem acaba de nascer, está em condições de desafio ao mundo e pelo cheiro - pelo simples ato de existir, de estar, de ignorar - provoca sensação de impotência absoluta)
Como poderia recusar? Não prove mais sua existência, por favor. Não emita um som, eu pedi - e assim foi feito. Pois é calor no Rio de Janeiro, e os Deuses ficam mais tolerantes. E caso eu houvesse tocado, apenas uma vez que fosse, e sentisse a carne macia entre meus dedos, talvez pudesse sentir culpa maior. E se caso - mas não aconteceu - eu o apertasse contra o peito e percebesse que seu corpo cabia em apenas um braço de abraço, o levaria para tão longe daquilo tudo que nunca mais ousaria procurar, por saber inútil.
E seria a melhor das coisas. E das pessoas. E ainda assim.
Posted 1:44 PM by RENATA CORRÊA
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