CONFESSO, ENFIM
(Subtexto: Oh, estou tão sentimental...)

No sono, respiro devagar. Mas é para não me acordar.
Ah, se o mundo fosse mudo, seria um tanto quanto mais feliz.
O que provoca desespero é o fato de que tudo é tão grande, não sei de plenitudes, não sabia, até então. Pois quem vive para a dor, com a dor, e nela cria seu objeto, a revira, chega até a contar nos dedos pra provocar desequilíbrio. Era assim: sempre recontando e perdendo-se.
E agora? Agora é abismo. Quando eu pisava firme e em asfalto quente ignorava que existe algo entre areia e lodaçal. E que pode ser fresco e puro, e ainda chegar sem resistência, tomar ¿ um minuto, por favor, preciso de fôlego para continuar - um lugar ainda desconhecido!
E se alguém estendesse a mão e dissesse: Vem! Não faria o menor esforço para fingir mesuras ou agradecimento.
Vi acontecer, bem diante dos meus olhos: O sol não se pôs. E não era mais dia ou noite. Ficou estático, metade céu, metade água - arregalado e absurdo, como quem recebe ordem de última hora. E se o ar ficou também suspenso para ver, como não acreditar?
Enfim, deixou-se. Afinal, não poderia parar tanto movimento. Seria injusto com o resto. Mas de que importa o resto? Sabia, então. Guardou a lembrança, decidiu usá-la quando fosse tempo.
Foi entre uma palavra e outra. Você disse: Vem. E eu não preciso mais saber.



Posted 4:23 PM by RENATA CORRÊA


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UM ACORDE.

Foi quando ainda existia música que aconteceu.
Andou até o primeiro acorde e sentiu que poderia além. Mas ainda assim, retrucou - ninguém faz tanto numa valsa de um tempo só.
Caso tentasse uma dança, talvez fosse exato, como são as coisas que começam e terminam sem mais explicação. Mas o caso não era esse, era apenas som, e não movimento.
Poderia tentar uma vez, ou duas, mas quem faz tanto, em tão pouco tempo?


***

Viu-se sozinho pela primeira vez, desde a noite anterior. Zanzou pela casa, a olhar para o alto. Não viu mais saias ou calças, nem gentis senhoras levando as mãos à boca. Tanto movimento automático, pés ligeiros, beijos de ocasião. E copos, brindes, saúde que não acaba mais - veja tudo o que pode acontecer numa valsa de um tempo só.

***

Seria assim, então - estava decidido - um ofício solitário, partituras e cordas, viraria noites, beberia todo o uísque. Suaria dentro do quartinho calorento, mentiria aos vizinhos que era apenas trabalho, e não arte. Seria assim, negaria o prazer de todo o processo, e seria livre. Sim, livre. E já exausto, poderia confessar que acabara.

***

Era tanta a certeza que a valsa era silêncio, que não suportava a dor da música a invadir seus ouvidos, tira-lo do eixo, movimentar aquele pequeno salão. Mas não poderia negar esse prazer. Novamente, o primeiro acorde. Esmagava-lhe o peito, ver todo aquele desespero esparramado em sorrisos e celebração.
Era esta a maldição do Maestro. E ainda sim, ver espalhando no ar, morrendo em paredes de qualquer espetáculo vulgar, tudo aquilo que criou.



Posted 5:26 PM by RENATA CORRÊA


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SANTOS DE GESSO

Cada vez que passava em frente à loja, estavam lá, os santos, brancos, lívidos, como corpos, mortos e assustados. Os santos, todos iguais, não podia nem distinguir dos milagres a forma delicada, o sulco montando narizes, pequenos dedos e até furinhos no queixo.
Nunca tive sorte com as mulheres, e o que é pior, elas nunca tiveram sorte comigo. Só Laura e nosso poço de desenganos, eu lamentava meu sem jeito e ela lamentava a escolha.
Imagine que Laura era todas as cores, mas agora descasca, é estranho vê-la como vejo todas as outras mulheres. O que é bonito de olhar na rua e lembrar do olho, do jeito de mexer no cabelo, mas agora qualquer corpo pode ser o dela. Foi na certa como um santo de gesso. Ninguém compra antes da pintura e Laura se fez cheia de tons pra mim, como não percebi?
Todo o esforço para ela; Dei luz, altar, pendurei no pescoço o escapulário, Laura, Laura, Laura, era voltado para o Oeste que eu lembrava de você, e para você dediquei todas as canções - as minhas e as dos outros.
Cheguei em casa aquele dia e só ouvi um gemido surdo, um quase soluço, foi ali naquele banheiro, sua mão manchada de vermelho, o fio de sangue escorrendo por entre as coxas, não pude deixar de perceber que seu choro era de alívio e não de pesar. Desbotou. Você foi descascando feito estátua velha mal ajambrada, feito bicho que muda a pele e descora.
Sempre penso no filho que você queria ter não querendo e mentia dizendo os mesmos sonhos que os meus.
No ralo, o sangue em espiral, rodando calmo, só me sobra a água limpa.

Posted 9:18 AM by RENATA CORRÊA


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Isso já estava aqui, mas agora resolvi que tem um perfil mais M-E.
Quem já leu, esquece, pula pra baixo.

NA JANELA

Eu falo sobre entregar os pontos. Pois mais ríspido não poderia ser. Entregaria então, ao subterfúgio fácil, à carne, traição.
Vi um senhor passar de chapéu, e chovia.
E o poste fazia gotas brilhantes dançarem no chapéu (plic plic plic - odiosas chuvas fracas).
Mas tão frágil: proteção inútil - a água escorre em ombros de ternos, inventam negro no cinza, e aí, nada mais.
Houve então, naquela época, quem me dissesse que poderia sim, articular um revide sórdido. E que ainda sim, seria de um perdão quase angelical. E de toda indulgência.
Foi-se o tempo que a honra era lavada com sangue. Não existe honra, muito menos, sangue possível de purificação.
Tão bonita a fumaça no vidro!
Um telefonema.
E fica, por favor, não vai.
Não tem ninguém do outro lado da linha.
Melhor continuar inventando vinganças - esperando que ele volte.


Posted 3:20 PM by RENATA CORRÊA


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VEIO UM VERSO.

Eu não sei se é um lugar, a palavra.
Às vezes parece que sim; Fica um tonto a procurá-la, aquele que caminha incessantemente e busca, mesmo sem vislumbrar a direção.
Tenho motivos para acreditar que por mais fluído que pareça, se um dia entregarmos os pontos, surgirá, em magnitude, fortaleza. Mas ainda sim, como a morte, não se soube nunca de alguém. Simples crença.
Mas será que é palpável e quando vem, dispensa todo o resto?
Veio um verso no meu lábio, ontem. Mas escorreu.

Posted 11:20 PM by RENATA CORRÊA


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Ah, eu não me orgulho disso, mas eu comprei uma câmera digital e não resisti.
Sim, agora eu tenho meu próprio fotolog.
É que narciso acha feio o que não é espelho.
Posted 6:50 PM by RENATA CORRÊA


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