Sábado, Outubro 30, 2004
EU JÁ DISSE ISSO?
Sábado é dia de Umbigo. E lá tem a resposta daquela carta de sábado passado. Acho que o tempo foi-se e alguém não viu.
Posted 12:59 AM by RENATA CORRÊA
Terça-feira, Outubro 26, 2004
MUNDO REAL.
EPISÓDIO 1.
TIO LOU.
Era a casa onde todo mundo passava as férias, a casa de tio Lou. Italiano, gordo que foi bonito um dia, obrigava todo mundo a comer, até rebentar e nem se preocupava se depois fosse todo mundo para a praia do Leblon, duas da tarde. Gente nova não morre de congestão, dizia.
Tio Lou vivia de ter banca de jornal. Não era pobre, mas também não era rico. Era sim, muito apaixonado pela tia Lu (acasos do destino, os dois, quase o mesmo nome), e tascava nela beijos de língua na frente das crianças, que ela corava e brigava, mesmo depois de anos de casamento.
Ano após ano as férias foram ficando menores e as diversões dos primos cada vez melhores. Tio Lou cada vez mais excêntrico. Mas isso é coisa da idade, diziam. Tia Lu resmungava que seu pai tinha dito para não casar com Italiano, que boa coisa não dava. E agora os filhos com esse mau gênio. Mas, escondidinha olhava para ele bem contente de não ter marido que dorme de boca aberta do sofá.
E nisso tio Lou escondia as pranchas de Surf, trocava os cabos dos videogames, trocava os biquinis das meninas de lugar, colocava pimenta no prato de algum desavisado. Ia envelhecendo e ficando criançola. Além disso, levava aquele bando de adolescentes para apostar na loteria esportiva com ele, fazia um jogo para cada um.
Foi no ano em que a mais nova fez quinze anos que tocaram a campainha do apartamento. Eram uns carregadores e traziam engradados e mais engradados de Coca - Cola. Tia Lu não entendeu nada. O endereço conferia, e a nota estava no nome do tio Lou. Deixou entrar e a casa foi sendo tomada por caixas vermelhas que não dava mais pra andar da cozinha até a sala. Só pulando por cima do sofá.
Horas depois chega o tio Lou com uma maleta azul royal. Nem tomou conhecimento das caixas e foi pulando tudo até a janela. Abriu a maleta e começou a tirar notas de mil cruzeiros e jogar lá embaixo. Começou um alvoroço doido e gritaria e "Tá chovendo dinheiro no Leblon", "Tá chovendo dinheiro na Cruzada", com gente se batendo de todo o jeito.
Claro que tia Lu tentou impedir, mas como segurar um Italianão de um metro e noventa de mais de cem quilos e ela, menos de um metro e sessenta?
Resignada, tia Lu começa a pensar que deveria existir um bom motivo para aquele espetáculo. Foi aí que tocou o telefone. Era Josias, um dos jornaleiros empregados do tio Lou. Queria dar parabéns, todo mundo no bairro já sabia que Seu Lou tinha ganhado na loteria esportiva. Veio distribuindo dinheiro da Antero de Quental até o Jardim de Alah.
Dias depois da confusão tio Lou teve um ataque. Ficou tremelicando no chão, dizendo coisas desconexas. Foi aí que descobriram: doido, doidinho de pedra. Tia Lu jamais admitiria que internassem seu marido e cuidou dele até o fim.
O tio Lou, claro, nunca mais foi o mesmo. Tomou um apego doido pelos engradados de Coca - Cola, nem bebia mais água se tia Lu não insistisse. Morreu bem velhinho. Bebendo refrigerante e tascando uns beijos de língua na tia que esta até corava. Mas não brigava mais.
Posted 11:18 AM by RENATA CORRÊA
Sábado, Outubro 23, 2004
Sábado é dia de UMBIGO!
Tem post meu lá. É uma carta. Meio triste, meio esquisita, mas é uma carta.
Posted 1:33 PM by RENATA CORRÊA
Quinta-feira, Outubro 21, 2004
AINDA ASSIM
Fico nessa esquina, esperando. De um lado os carros. Do outro, a criança batendo a bola na parede, toda a tarde, numa ladainha infernal. E a esquizofrênica na janela (faz tanto sentido, ou será que sou eu?) - ela grita.
Faz, assim, por favor: Quando passar por aqui, não peça que eu encolha as pernas, nem pule por sobre meus joelhos para seguir caminho. Não custa nada desviar, são alguns metros apenas. Não, não é um ritual. Eu apenas sei.
Claro, claro, fumo um cigarro para garantir. Dois, dez. Cronometrei esses dias: Quase quatro minutos. Se um maço tem vinte cigarros, oitenta minutos, o que dá uma hora e vinte. Uma hora e vinte a menos sem pensar. Mas quem diria, até na fumaça dançam meus propósitos!
Um dia passou uma menina de tênis vermelhos. Ah, caro leitor, você já sabe? Bem eu conto de novo, afinal, tem quem não saiba. Ela tinha meus olhos, bem grandes, triste foi não saber o que ela tinha de espera. Impossível. Desconfio, claro, que nas mãos. Talvez até no jeito de andar quem sabe? Mas isso é só possibilidade, o certo mesmo é que eram meus olhos. E as sobrancelhas. Eu vi direitinho. Queria que alguém visse. Mas é tanto espaço, que não existe mais eco...Sim, foi a principal distração do dia. Mas perdeu metade da graça quando ela tirou os tênis para correr. Não pergunte, não sei.
Conto ainda dos dias em que o gato pegou uma lesma. Ou quando a ambulância passou devagar. Mesmo daquele dia em que sentaram ao meu lado e falaram bobagens.
Uma grande desculpa, afinal, para quem espera. O mundo todo vira grande novidade.
Posted 9:14 AM by RENATA CORRÊA
Quarta-feira, Outubro 20, 2004
ERA UMA VEZ...
... Um poeta gente boa que resolveu acabar com este blog. Atendendo a pedidos e suplicas muitas, ele revogou o assassínio, e só deu um sonífero. Enquanto o efeito não passa, tenho o prazer de publicar aqui no Mundo Estranho, uma bela poesia do Sr. Alexandre Beanes, o Rabuja.
A vida não tem nenhuma novidade.
Eu canto, disparo tiros,
Desejo ser estranho
Como nunca fui aos seus olhos.
Ando por calçadas breves
Desconexas da grama lá de fora
Que me fariam respeitar placas de aviso
Se você ao menos deixasse meus pés tocar o chão.
Posted 2:32 PM by RENATA CORRÊA
Domingo, Outubro 17, 2004
PALAVRAS
Foi por assim dizer um acordo. Um teste, na verdade. Afinal, não tinham escolha - um movimento invencível - e um, cada vez mais longe.
Fariam assim:
Ele iria na frente e ela o seguiria. Ele deveria confiar totalmente no julgamento dela. Caso olhasse para trás (mesmo pelo mais nobre motivo) ela não estaria mais lá.
Se assim fizesse, ela repetiria o movimento inverso.
Tolos. Ambos. Como se pudessem adivinhar.
Antes do desafio proposto, encontravam-se num bar. E todos os dias eram como se fosse o primeiro. Afinal como controlar a ansiedade de conhecer um ao outro, depois de tanto tempo? Todas as coisas - o gesto, o olhar o movimento dos lábios (nenhum som mais precioso que o mover) - Ela apertava os olhos para avaliar a palavra.
E antes ainda, ela precipitou-se em dizer.
Ele calou, consentindo.
Mas volveu a lembrança doce-amarga. E disse. Começou a dizer.
Como ela poderia pedir para que parasse? Uma dor foi interrompida pela confissão. Mesmo que não quisesse ouvir gostaria de saber. E a ventura da surpresa veio quando, estabelecendo o mesmo comportamento, descobriu nele a mesma dor. E a mesma vontade.
Chama-se a conclusão do fato, inédito. Bem aventurado passado, pensaram. Reside nele o que eu sou, ele redargüiu uma vez. Ela concordou, num beijo que não veio. Mas virá.
Foi depois disso tudo, na estação do metrô, que ela não olhou para trás. Findo o teste - O dia está azul, meu bem. Agora podiam ser.
E mesmo se amanhã não for nada disso, as palavras sempre.
Sempre as palavras.
Posted 10:56 AM by RENATA CORRÊA
Sexta-feira, Outubro 15, 2004
Perdão, perdão.
Ouro preto foi ótimo, mas viajo novamente, amanhã.
E definitivamente só vou postar quando tiver um texto que valha a pena.
Tem alguns vindo, enfim. Mas como não vou ter tempo de trabalhar esse material ou fazer revisão, prefiro não.
Mas juro, juro juro que segunda deve ter alguma coisa. E promessa é dívida.
Posted 2:28 PM by RENATA CORRÊA
Sexta-feira, Outubro 08, 2004
PARTE CHATA
Tô indo para Ouro Preto. Não posto até dia 13 de outubro. Espero não voltar sóbria para o Rio de Janeiro.
Torçam por mim!
Posted 11:56 PM by RENATA CORRÊA
Quinta-feira, Outubro 07, 2004
Tem um post aqui no umbigo.
Meu dia lá será sábado, mas é só uma palhinha.
Espero que gostem.
Posted 11:14 AM by RENATA CORRÊA
Quarta-feira, Outubro 06, 2004
DESOXIGENOU
Estava ontem vendo Everyone says I love you, desse diretor aqui, quando de repente bateu um estalo.
Foi algo que nunca tinha me ocorrrido, apesar de já ter visto o filme em questão algumas vezes.
Um pai, liberal (segundo as palavras da narradora), vive às turras com o filho, republicano conservador. O pai simplesmente não entende o comportamento do filho, afinal ele foi criado em um ambiente onde só existiam democratas. A uma certa altura do filme, o moleque tem um treco e vai parar no hospital. O médico diz então "que se ele teve algum comportamento estranho no último ano, foi por falta de oxigenação no cérebro. e que "o raciocínio ficou prejudicado devido ao problema numa válvula X".
Só posso concluir então que o defeito é hereditário e esse personagem é, no mínimo, membro de uma família numerosa. Pois apesar da imprensa americana ser unanime em afirmar a superioridade de John Kerry no debate, George "Dumb" W. Bush continua com ligeira vantagem nas pesquisas.
Isto é, só posso pensar numa nação desoxigenada. Com problemas em válvulas. E que não consegue raciocinar direito. Os democratas deveriam fazer uma caravana por toda a extensão do território norte americano com médicos e exames grátis. E então, quem sabe?
Posted 9:55 AM by RENATA CORRÊA
Segunda-feira, Outubro 04, 2004
Isso é só um post.
Por que eu não costumo falar da minha vidinha medíocre aqui no blog. Mas é que hoje, hoje, de 9h às 13h foi um dia tão escroto que eu não resisti. Tem dia que é ruim mesmo, que dá TUDO errado, igual em filme pastelão, nem parece real, a coisa toda. E quando eu conto, tem gente que não acredita que eu sou um ser estúpido, que é literalmente atacada por jornais na ventania e que piada sem graça é o adjetivo mais singelo para os dias que eu passo.
Por que o despertador não funcionou e por que eu não mato mamíferos. Eu não sou fresca, acabo com as minhas baratas, já exterminei carrapatos, enfim. Mas nada me convence a matar um bicho que tem sístoles, diástoles, ligações nervosas, hormônios, sangue quente correndo nas veias. Nada. Mas ele tava lá e meu gato quis pegar, mas o bicho em questão era quase do tamanho do meu gato. E quem estava atrasada e não podia tomar banho encuralada pelo rato?
E por que depois uma boa alma se livrou do bicho e tinha sangue na minha cozinha, e vísceras eu acho.
E por que meu drive de disquete quebrou. E eu não tinha como imprimir minha prova, por que afinal, a impressora não precisa reconhecer o computador, afinal, nunca os apresentei formalmente. E por que não gastar R$ 10,00 cam a impressão? É só mandar o arquivo do trabalho para seu amigo funcionário da faculdade, ele põe num disquete para você, e aí, finalmente, manda imprimir.
E lá se vão R$ 10,00. E quer saber mais o que? Tudo isso correndo e quando você corre, você não pensa e não enxerga e não vê o suco vindo na sua direção. Aliás, a pessoa com suco, na sua direção. E existe hoje uma calça amarelo-maracujá. E como você não vê, não percebe também que a formatação do seu roteio foi pras cucuias, pois o word não era compatível. E sumiram também também todas as minhas cedilhas e as crases virarm agudos, os agudos viraram crases e e os circunflexos foram para a letra do lado, então "Não se preocupe" virou um roteiro de Renata Correâ. e você virou voce^. e tudo que tinha til saía rabiscado na diagonal.
Por que ainda não acabou: Por que que eu entrego a coisa desse jeito sem perceber. E vejo o Mariani com cara de espanto. E o Mariani, professor gentilíssimo (isso não é uma ironia), mostra a bela formatação.
E eu caio em pranto copioso.
E ele ri. E não pára de rir.
E quanto mais ele ria, mais eu chorava, de puro estresse. Foi tão ridículo, tão ridículo que eu fiquei completamente constrangida depois. E não conseguia discutir com ele sobre o roteiro, afinal tinha ido lá para isso. Por bem, ele gostou (Menos diálogos! Insira o elemento simbólico com mais força na história! Seus personagens falam mais que os do Eric Rohmer!). E esse é o jeito dele de gostar.
Ainda por cima, sem conseguir ouvir nada, que o médico tava marcado para depois da aula. E a pessoa vai ao médico. E dorme na sala de espera. E passam a frente da pessoa. E a pessoa continuaria surda até o fim da tarde.
Mas finalmente, quando a pessoa chega em casa, vai almoçar e aí põe o prato na mesa e vai pegar suco. Só que quando volta, vê o mesmíssimo gato que encontrou o rato, dentro do prato. Comendo, felicíssimo. Ele nunca tinha feito isso, desde o patê, mas ele era pequeno na época do patê. E era a raspa do tacho, a comida. Comi lasanha de microondas e Deus sabe o quanto eu odeio lasanha de microondas.
Pronto, falei.
Me sinto melhor agora.
Obrigada.
Posted 6:27 PM by RENATA CORRÊA
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