A TRISTE HISTÓRIA DO DESQUITADO ANDRÉ.

E chega a ser patético. Não entendo, você, já tão desbotado por mim, ainda insiste. Pega na minha mão, por favor. Me pede um beijo em francês!, (mas eu não sei falar francês!, reclama. Não interessa, eu quero...) e lá vai atrás de dicionários.
A moça que aparece - sempre aparecem moças - quer ter salvar. O moço que aparece - aparecem ainda mais os moços - quer me comer. Alguém nega. Alguém joga conversa fora. Eu conto baboseiras literárias. O moço cai. Eu vou pro meio da pista. Eu danço. O moço cai. Eu cantarolo uma música. É a preferida. Bingo. Eu não peço beijo em francês.
Você é tão lindo que eu me esqueço. Você tem pau pequeno e fode mal. Você é um grande sortudo. Eu ainda tolero. Eu ainda te levo pra passear. E te apresento aos meus amigos, viu? Deixo todo mundo saber. Isso te deixa feliz, não é mesmo? Ah! Todos gostam de você. Da sua cultura. De quando você conta da viagem pra Tailândia, mas quanta bobagem. Fico rindo horas, você realmente consegue se impressionar com cada coisa. Nem parece tão velho. Ah, esqueci de contar: velho. Tão velho e ainda não aprendeu a trepar, meu Deus.
E ainda tem vocação para ser feliz, nunca vi coisa que me irritasse mais.
Quando eu deito na minha cama e coloco as pernas para cima sempre lembro de como você chupa meus dedos. Eu tenho tanto medo, tanto medo de me contaminar com essa sua alegria, tanto medo. Poderia destruí-lo em um segundo certo? Bom, você sabe. Quando eu deixá-lo não vai sobrar nada além de um olhar embotado e umas canelas finas, impotentes no sofá. E eu vou, saiba que eu vou.
E eu continuo tendo medo, tanto medo de querer ficar do seu lado.

Posted 7:01 PM by RENATA CORRÊA


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SOBRE PATOS

17h. Dezessete. De dezessete eu gosto. Dos ímpares eu gosto, de quase todos.
Para quem passa pelo portão e vê os cavalinhos de cabo de vassoura pintados de amarelo e vermelho espetados na grama, pode até pensar na obra daquele artista plástico. Eu pensei, pelo menos. Mas não. Eles são vendidos pela módica quantia de R$ 5,00. Cinco. Mas de cinco eu não gosto. Ninguém compra; e aquele jardim de cavalos parece ter saído da terra.
Acho que ninguém sabe o quanto é ruim esperar. Acho que só eu aceito reuniões no Museu da República. Menos mau - pelo menos tem os patos. E as crianças, bicadas pelos gansos. Mas eu sempre preferi os patos. Gansos trazem recordações como vidros jateados, ou pior, espelhos jateados. É a peça mais feia que pode existir numa decoração, tenho dito.
As coisas em si sempre parecem mais rápidas que esperar por elas. Esperar pela coisa é infinito. Como o cavalo de cabo de vassoura: espera longos dias de visitação no Museu para ser comprado. As crianças cansam, sempre. E de forma ligeira. Setenta e duas horas depois, a empregada joga o cavalo fora, no buraco da lixeira do prédio. A criança - entediada - liga a Tv. E vê outros cavalos. Cansam dos cavalos. Mas não cansam de tomar carreira dos gansos.
Agora, já não tenho mais reunião. E não espero mais nada. Às vezes é melhor Ter algo pelo que esperar. Mas eu não espero mais nada, de ninguém : só dos patos. Sua eterna ladainha, seu andar desengonçado. Previsíveis, aqueles patos. Os dois, pretos. De dois eu gosto. Único número par e primo. Mas isso é outra história.

Posted 6:17 PM by RENATA CORRÊA


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INCENSO ou EU TAMBÉM SOU HIPÓCRITA

Esse cheiro de incenso doce. É isso que acaba com o meu humor, diga-se. Para quer disfarçar o indisfarçável? Só posso crer que realmente gosta dessa náusea, dessa tontura.
Acabei de sair para comprar sabão em pó, acabei de sair, só para me afastar dessa mania de colocar cortinas, instalar climatizadores e acender incensos. Dessa mania de cobrir com névoa, dessa mania, digo, esse hábito, apreendido com tua mãe e avó, de ignorar o genuíno, o feio, o desagradável. De passar pelo mundo como se fosse aquilo que já não é. Cegando aos poucos, mas incessantemente, não posso deixar de repetir: cegando.
Houve uma vez, na semana dos aniversários, que a vida abateu-se sobre mim. Encarei, mas o óbvio desequilíbrio de forças fez também uma óbvia derrotada, a lamentar-se em longas conversas.
Houve uma vez, na Confeitaria Colombo, que disseram que a vida pode ser boa. Que podem existir vitrolas e discos de vinil, filmes preto e branco e mulheres de vestidos com bolinhas pretas. Eu respondi que tudo já era terrivelmente bonito, e que não precisava de mais mentiras de lantejoulas.
Ao fundo, duas moças riem-se ao telefone.

Posted 12:33 PM by RENATA CORRÊA


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AO VENCEDOR... ou COMO FAZÊ-LO, EM APENAS UMA LIÇÃO.

Mesmo sabendo que. É assim. Não posso negar, e ainda, não me repreender por tão ridículo comportamento.
Manipulo, consciente, e pergunto, sempre as perguntas, por que apenas eu movo, respiro, entrego. Chego a entender como fraqueza., mas logo vejo: Não, não é.
Ela disse "Nada é mais público que o rigorosamente pessoal.", servi a esta verdade. Não que agora eu me arrependa, não. Mas eu simplesmente preferia não saber como você lida com essas dores, como você diz sim, mesmo que não seja eu.
E para aqueles que precisam de minha explicação, para aqueles que não se satisfazem com a minha exposição e sempre querem mais, mais, e mais ainda, virar-me do avesso, como se conhecendo o objeto, soubessem., mas não. Não sabem. Para esses digo: Sim, houve noites. Houve idéias. Sim , existiram planos, e existiu carne, e muitos cabelos espalhados entrecortados por palavras, vírgulas, semântica de botequim. Mas isso é fato. E para fatos, prefiro os telejornais.


Posted 9:26 AM by RENATA CORRÊA


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